A palavra “Scout” significa veículo de reconhecimento. Este termo foi famosamente utilizado nas especificações técnicas do que viria a se tornar o Jeep. No entanto, nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, as aplicações militares para automóveis ainda não estavam no radar. Em vez disso, o nome Scout pertencia a uma máquina completamente diferente — e notavelmente inovadora.

A Lenda do Chassi Invertido
Uma lenda popular envolve o nascimento deste automóvel. A história conta que Harry Stutz, engenheiro-chefe da American Motor Car Company, sediada em Indianapolis, olhou pela janela de seu escritório certo dia e avistou dois operários carregando um chassi comum de cabeça para baixo pelo pátio da fábrica. Uma fagulha de inspiração o iluminou: por que não construir um carro com o chassi invertido? Ao posicionar o chassi abaixo dos eixos e os feixes de molas acima deles, os engenheiros poderiam alcançar algo notável. Embora esse design sacrificasse um pouco da altura livre em relação ao solo, rodas de maior diâmetro poderiam compensar — e o centro de gravidade mais baixo melhoraria drasticamente a dirigibilidade.

A História Real por Trás da Inovação
A realidade, como de costume, era um pouco diferente da lenda. Harry Stutz não ficou na American Motor Car Company por muito tempo — menos de um ano. Ele projetou o primeiro modelo da empresa usando construção convencional e depois partiu para trabalhar em outra montadora, a Marion. Portanto, se alguém teve aquele famoso estalo do “chassi invertido”, foi provavelmente seu sucessor.
Esse sucessor foi Fred Tone, e ele foi o verdadeiro responsável pelo primeiro automóvel com “chassi de cabeça para baixo”. Suas motivações não eram puramente técnicas — o marketing desempenhou um papel significativo. Desde o início, a American se posicionou como “um carro para os poucos exigentes”, e oferecer algo verdadeiramente incomum a esse seleto público-alvo encaixava perfeitamente com essa estratégia.

Estabilidade Extraordinária: Uma Vantagem Inesperada
A incrível estabilidade que esses carros apresentavam acabou sendo quase um bônus. Veja estes números impressionantes:
- Carros americanos comuns da época: tombavam com aproximadamente 43 graus de inclinação lateral
- Modelos American Underslung: suportavam inclinações superiores a 55 graus sem problemas
Essa resistência extraordinária ao capotamento fazia o American Underslung se destacar de forma marcante entre seus contemporâneos.

História e Reputação nas Corridas
A carreira esportiva do American Underslung foi breve e sem grandes resultados. Sua única participação competitiva — a Corrida do Desafio de Savannah de 1908, na Geórgia — terminou na última colocação. Diante de concorrentes equipados com potentes motores de aviação, ele simplesmente não conseguia igualar a potência.
Apesar dessa decepção nas pistas, os consumidores o consideravam um “modelo esportivo” projetado não para vitórias e recordes, mas para viagens de longa distância em alta velocidade e com prazer. Sua reputação certamente era reforçada pelas enormes rodas de 40 polegadas — nas notoriamente irregulares estradas americanas da época, uma maior altura livre em relação ao solo era sempre bem-vinda.

Especificações Técnicas
O American Underslung Scout apresentava uma engenharia impressionante para a sua época:
- Diâmetro das rodas: 40 polegadas (aproximadamente um metro)
- Comprimento do feixe de molas dianteiro: 914 mm (36 polegadas)
- Comprimento do feixe de molas traseiro: 1.190 mm (quase 47 polegadas)
- Entre-eixos: 2.667 mm (105 polegadas)
- Transmissão: Câmbio manual de três velocidades

Carrocerias e Nomes dos Modelos
Oferecido inicialmente apenas como biplaza, a linha foi expandida com o tempo, e cada variante recebeu sua própria denominação:
- Scout: Roadster de dois lugares (ilustrado em nossas imagens)
- Traveler: Versão de quatro lugares disponível em configurações abertas e fechadas
- Tourist: Modelo de sete lugares com chassi convencional
- Wayfarer: Modelo mais curto de cinco lugares com chassi convencional
Motores: Propulsores Fabricados em Indianapolis
A American adquiria seus motores da Teetor-Hartley, outra fabricante de Indianapolis. Esses motores de quatro cilindros em linha apresentavam:
- Cabeçotes não removíveis
- Válvulas laterais (admissão de um lado, escapamento do outro)
- Duas velas de ignição por cilindro

Opções de Motor Disponíveis
- Motor base: 6,4 litros com 40 cavalos de potência
- Opção maior: 7,8 litros com até 50 cavalos de potência
- Motores menores: Disponíveis nos modelos Scout posteriores
- Opção de seis cilindros: Motor de 9,3 litros com 60 cavalos de potência
A Identidade da Marca American Underslung
A partir de 1912, todos os modelos com o chassi posicionado abaixo dos eixos passaram a ser comercializados como “American Underslung” — literalmente “suspenso por baixo” — em vez de simplesmente “American”. No entanto, a plaqueta original no radiador permaneceu inalterada.

Em Destaque: O Modelo 1913
O exemplar apresentado aqui é um modelo 1913, representando o último ano de produção. Os upgrades notáveis incluem:
- Iluminação elétrica: Em substituição às antigas lâmpadas a carbureto
- Carcaças originais mantidas: Os novos dispositivos elétricos foram instalados nos corpos das lanternas clássicas
- Modernização visível: Observadores atentos podem notar a característica fiação trançada que chega às carcaças dos faróis, no lugar dos tubos de latão, além das lâmpadas elétricas atrás das tampas de vidro articuladas
Preços: Luxo para a Elite
Os automóveis American foram posicionados como veículos de luxo de alto nível desde o início, com preços à altura:
- Limousine Traveler 1911: US$ 5.250 (equivalente a aproximadamente US$ 130.000 hoje)
- Público-alvo: Exclusivamente “os poucos exigentes”
- Perspectiva de mercado: Potencial limitado para crescimento significativo de vendas

O Fator Ford: Uma Indústria em Transformação
Nessa época, Henry Ford já havia descoberto o caminho mais lucrativo: fabricar carros acessíveis para o consumo em massa, em vez de automóveis caros para uma minoria abastada. Enquanto a American ainda podia se concentrar na exclusividade para os ricos quando a marca foi lançada, oito anos depois essa abordagem claramente levava a um beco sem saída.
O Fim de uma Era
Em 1913 — o mesmo ano do nosso Scout em destaque — Fred Tone deixou a empresa. Sem ele, a produção de automóveis cessou permanentemente em novembro. A empresa, então operando como American Motors Co., declarou falência. Na primavera de 1914, tudo havia acabado.
Os aproximadamente 50 carros não vendidos que restavam na fábrica foram adquiridos a preços de liquidação (entre US$ 600 e US$ 900 cada) pela Chicago Auto Parts, que os desmontou parcialmente para obter peças sobressalentes.
Legado de Produção
Ao longo de seus oito anos de existência, a American Motor Car Company produziu aproximadamente 45.000 veículos em todos os modelos. Nada próximo aos números de Henry Ford — mas a engenharia inovadora do American Underslung deixou uma marca duradoura na história automotiva.
O American Underslung Scout 22-B permanece como um fascinante exemplo de inovação automotiva dos primórdios, provando que, às vezes, as melhores soluções de engenharia surgem quando olhamos para os problemas de um ângulo completamente novo — mesmo que esse ângulo seja de cabeça para baixo.
Foto: Andrey Khrisanfov
Esta é uma tradução. Você pode ler o artigo original aqui: American Underslung Scout 22-В 1913 года в рассказе Андрея Хрисанфова
Publicado Fevereiro 05, 2026 • 7m de leitura